Boas Práticas

  • Entrevista com Fábio D’Angelo

    Agora apresentamos a entrevista com Fábio D’Angelo ao Prêmio Petrobras de Esporte Educacional.

    PPEE – Como o senhor explicaria o Esporte Educacional para os que não conhecem ainda este conceito?

    D’ANGELO – Nas últimas décadas o esporte, enquanto um fenômeno cultural, “cresceu”, “apareceu” e tornou-se um DIREITO fundamental de todos os povos. Em tempos de Copa do Mundo e Olimpíadas, o tema está na “boca” do povo e se vincula a áreas como política, economia, mídia, entretenimento, lazer, ciência, tecnologia e educação. O que se pretende com o ESPORTE EDUCACIONAL é romper com o modelo atual onde poucos são os praticantes e muitos os observadores. Na sua dimensão educacional o ESPORTE configura-se como um conteúdo (prática) com possibilidade para contribuir na formação e no desenvolvimento das crianças, jovens e adultos brasileiros. Um povo alfabetizado esportivamente, na nossa concepção, terá mais chance não só de praticar o esporte, mas também de educar-se para a vida, para o exercício da liberdade e da cidadania. Como diz o Prof. João Batista Freire, o ESPORTE EDUCACIONAL tem a missão de integrar o ensinar “bem” com o ensinar “mais do que” o esporte.
    Nesta perspectiva, o foco está em democratizar o acesso à prática e à cultura do esporte, de forma a promover o desenvolvimento integral dos seus praticantes para além do papel passivo de apenas expectadores. O esporte a ser ensinado aos cidadãos brasileiros dentro e fora das escolas deve respeitar os princípios da inclusão, da participação, do respeito à diversidade, da construção coletiva e da autonomia. Isso se expressa através de uma pedagogia onde seus praticantes aprendem para jogar, mas também jogam para aprender.

    Ouro Preto

    PPEE – Como o Esporte Educacional poderia compor o dia-dia dos profissionais que atuam tanto no Terceiro Setor como na educação formal?

    D’ANGELO – Temos aqui uma boa oportunidade para refletir sobre a formação do pedagogo do esporte. O esporte educacional poderá compor o dia a dia dos profissionais na medida em que se tornar objeto frequente de estudo e reflexão. O professor Jorge Olimpio Bento, estudioso da pedagogia do esporte, nos ensinou que “o ESPORTE, feito pelos homens, está aí para nos fazer”… Podemos então fazer homens melhores através do esporte? Acreditamos SIM que as crianças e os jovens são especialmente atraídos pelo esporte, de modo que ele pode-se se tornar um excepcional veículo de educação. Porém, por si só o esporte não é educacional; sua prática não garante necessariamente saúde, responsabilidade, emancipação, ética, e assim por diante. Qualquer esporte possui virtudes e vícios. É muito comum, a partir de uma visão virtuosa do esporte, muitas vezes influenciada pela mídia, justificar o seu aprendizado ou a sua prática como a “salvação da pátria”, algo que vai oferecer uma ocupação saudável, em contraposição ao ócio, ao envolvimento com as drogas, à violência, etc. O desafio está em transcender aquilo que chamamos de “panaceia” do esporte, com uma locução frequentemente alienada e ingênua, para uma prática consistente e consciente do seu potencial e das suas limitações. Tudo é uma questão de MÉTODO, tudo depende do modo como o esporte é orientado e ensinado pelos professores e educadores esportivos. O ESPORTE EDUCACIONAL, tal como é concebido pelo Instituto Esporte e Educação – IEE, supõe um método, isto é, um modo de orientar as atividades em que os professores têm por objetivo desenvolver conhecimentos que, não só ensinem o gesto esportivo, mas também contribuam para a formação da cidadania. A nossa opção é pela pedagogia do “conflito”, que supõe um jeito de fazer que provoca a tomada de consciência e pretende ser transdisciplinar, ou seja: que contribua para que os alunos levem consigo aprendizagens para o “após” as aulas e também para “além” da quadra. No IEE o método parte do princípio de que todos podem aprender o esporte, principalmente porque ele é pensado a partir do jogo, da brincadeira. O nosso caminho é ensinar através do jogo. Para tanto, não basta colocar as crianças para jogar, é preciso intervir qualificadamente nesse espaço. No método sugerido pelo IEE os professores percorrem o caminho de: favorecer a participação, valorizar a experimentação, provocar o conflito, promover a ajuda ajustada, gerar interações, possibilitar o sucesso e ensinar com significado. São orientações didáticas que sustentam um método que objetiva a “tomada de consciência” de quem aprende. A tomada de consciência é base para fortalecer o pensamento, para integrar o fazer e o compreender. Nas aulas ministradas pelos professores do IEE é possível praticar esporte, mas é fundamental que os alunos compreendam a sua própria ação. Isso quer dizer levar consigo os conhecimentos de uma ação específica, no caso a prática do esporte, para outras situações de vida.

    PPEE – Em relação aos jovens, como o Esporte Educacional pode ser apresentado como uma ferramenta para o Desenvolvimento Integral deste?

    D’ANGELO – Um dos maiores desafios nos programas de esporte educacional para os jovens é a sua fidelização. A experiência tem nos mostrado que a não permanência do jovem se justifica por uma série de fatores como o estudo em tempo integral, o trabalho precoce, a necessidade de ajudar a família financeiramente e principalmente a falta de motivação e interesse nas atividades. Como professores compromissados com o presente e também com o futuro dos nossos alunos, acreditamos que é possível termos jovens melhores, vivendo em um mundo melhor. Alguns fazem isso através da arte, outros através da música ou até mesmo da dança. Nós queremos fazê-lo ensinando o esporte. Quando o assunto é o esporte para os jovens, precisamos integrar o presente e o futuro, ou seja, achar o equilíbrio entre o esporte como “fim”, mas também como “meio”. O esporte é fim porque, quando um jovem vai a um local para aprendê-lo e praticá-lo, ele precisa ser satisfeito quanto a isso. É importante garantir a prática e a participação dos meninos e das meninas em torneios, festivais, campeonatos, etc. Porém, o esporte também é meio, porquanto, quando o aprende, o jovem pode construir valores positivos, pode fortalecer seu pensamento, pode aprender a lidar melhor com as suas emoções, pode desenvolver uma melhor apreciação estética da técnica, pode desenvolver uma melhor percepção do próprio corpo, enfim pode ampliar suas chances de dar significado às coisas do mundo em que vive. O esporte como um espaço para o desenvolvimento integral dos jovens deve apoiar-se sobre projetos que estimulem habilidades relacionadas com o protagonismo, a liderança e a autonomia. O ponto de partida desta pedagogia está no diálogo e no poder de escuta sobre aquilo que os jovens têm para “dizer”. Toda a aula de esporte educacional para os meninos e as meninas tem como eixo principal a construção coletiva, como estratégia principal para fazer os conteúdos transitarem das “mãos” dos professores para as “mãos” dos alunos. Os resultados mais interessantes colhidos pelo IEE no seu programa de jovens estão relacionados com projetos nas temáticas de monitoria, planejamento e realização de festivais e circuitos esportivos, liderança juvenil, grêmio e empresa júnior voltados para a fabricação de material esportivo, coordenação de eventos e geração de renda, apoio às ações comunitárias, etc. São todos projetos que buscam uma educação integrada nas habilidades do ser, do saber, do fazer e principalmente do conviver. Tão importante quanto jogar bem é saudável fazer do esporte um tempo e um espaço de aprendizagem e auto-desenvolvimento.

    PPEE – Sabemos que a maior parte dos investimentos vai para a prática de esporte de alto rendimento, principalmente os esportes populares. Como atrair investimentos para projetos de esporte educacional que notoriamente traz um cunho mais social?

    D’ANGELO – A captação de recursos parece estar atrelada à capacidade das instituições em cumprir com as demandas da legislação vigente. É preciso valorizar as leis que preveem incentivo fiscais às empresas e o repasse aos parceiros executores de programas e projetos, mas também é preciso ressaltar o difícil caminho a ser percorrido pelas instituições desde a aprovação até a captação dos recursos e prestação de contas. Imagino que a atração de mais investimentos e a pulverização dos recursos pelo país exige a criação e o fortalecimento de parcerias entre o poder público e as instituições para que estas possam construir e adquirir a competência necessária na gestão dos projetos. Vale dizer também que a lógica de investimentos maiores no esporte de rendimento irá pouco contribuir para a formação de um país educado esportivamente. Está lógica só faz reforçar o modelo já existente, onde predomina a exclusão, a marginalização e a falta de acesso dos cidadão brasileiros ao seu direito previsto na Constituição. Temos aí uma “batalha” política a ser vencida junto aos nossos representantes, os chamados gestores públicos. Entre as muitas prioridades sociais, é desafio convencê-los de que o esporte pode e deve fazer parte de uma plataforma que associe saúde, educação e cidadania.

    PPEE – Como falar sobre Esporte Educacional associando aos grandes eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas, sabendo que esses eventos são mais relacionados ao esporte de alto rendimento?

    D’ANGELO – A discussão do legado dos grandes eventos, nos parece, tem sido conduzida mais no âmbito das área de infraestrutura, da economia e do turismo. Vale ressaltar que temos algumas ações interessantes sendo realizadas com o objetivo de discutir o legado social da Copa e das Olimpíadas, com foco na conscientização e na mobilização do poder público para o desenvolvimento de uma cultura esportiva de possível acesso para todos os brasileiros. Um bom exemplo é o movimento liderado pelas instituições “Atletas pelo Brasil” e “Instituto Esporte e Educação” nos projetos Cidades da Copa e Cidades do Esporte. As cidades sedes dos grandes eventos, representadas pelos atores da sociedade civil e do poder público, estão participando de ações que contemplam um mapeamento das políticas já existentes e a construção de planos de ação com as metas de garantir o esporte na educação pública para todas as crianças e adolescentes (até 2022); democratizar a prática esportiva, dobrando o número de praticantes em todo o país (até 2022) e estruturar um sistema esportivo nacional que possa integrar as diferentes dimensões do esporte e também melhorar seus processos de gestão e controle. O caminho é longo, mas “sementes” já foram plantadas. A nossa experiência como coordenador pedagógico do IEE nos permite dizer que podemos celebrar a existência de uma REDE que caminha a “passos largos” no sentido de tornar o esporte acessível a todos, isso para que seus benefícios na saúde, na educação e na formação de valores façam parte da realidade de milhões de brasileiros.

Aqui você terá acesso a experiências pedagógicas do Prêmio Petrobras de Esporte Educacional que foram validadas e classificadas como Tecnologias Sociais de Esporte Educacional pela Comissão Julgadora.

Este banco de Boas Práticas poderá ser consultado tanto por instituições e pessoas ligadas ao Esporte Educacional, quanto pelo público em geral. A intenção é disseminar o conhecimento sobre o tema e criar um espaço de troca de saberes, contribuindo, assim, para o fortalecimento da rede de Esporte Educacional.

As Boas Práticas estarão disponíveis após o período de seleção. Acompanhe a nossa Agenda e fique ligado!

Fórum

Em breve um espaço para discussão e troca de experiências.

Somos uma empresa integrada de energia comprometida com o presente e futuro de nosso país. Acreditamos que o esporte é uma importante ferramenta de desenvolvimento humano e social, e por isso, lançamos, em 2010, o Programa Petrobras Esporte & Cidadania, que reconhece o esporte como um direito de todos.

As ações desenvolvidas no esporte educacional estão de acordo com as seguintes linhas de atuação: atendimento direto a crianças e adolescentes, fortalecimento das Redes de Esporte Educacional e Incentivo a tecnologias sociais para o esporte.

É neste contexto que se insere o Prêmio Petrobras de Esporte Educacional, que vai premiar experiências pedagógicas que vêm sendo desenvolvidas em todo o Brasil.

http://www.petrobras.com.br/

O CIEDS, Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável, é uma Instituição Social Sem Fins Lucrativos, filantrópica, detendo titularidade de Utilidade Pública Federal, com status de Consultor Especial do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas – ECOSOC, desde julho de 2013.

http://www.cieds.org.br/